Esperei o tempo certo para dizer que nós fomos errados. Inteiramente errados quando deixamos o nosso castelo de cartas para trás. Uma cigana me disse que a sorte não é feita de leituras baratas, mas uma contagem regressiva que badala cem vezes na catedral. É como esperar pela morte, sem saber se o presságio é sombrio. Um anjo noturno pôs-se a cantarolar uma canção de carnaval, para que as flores reinassem em meus dentes. Para que o céu se cobrisse, farto do meu cansaço e da minha preguiça de sair do quarto. Não importa quão incólume esteja, pois o mundo vem em meu encalço, arranha a sola do sapato, bate três vezes na madeira e me obriga a levantar da cama para contemplar a vista além da janela. Afasto a cortina, sacudo a grinalda de poeira, mas nada vejo além do breu. Não é noite, ainda não escureceu, todavia não há luz. Os faróis se apagaram, os fogos foram corroídos pelas chamas bruxuleantes do deserto. Tenho um segundo para fugir, mas a chuva está gotejando no telhado. Tenho medo de me molhar. Da poça funda e do oceano raso.
Um milênio se passou, de sóis nublados e luzes escuras, ventos frescos e mentiras sábias nos lábios de quem não teve alma para amar. O coração submisso de um escravo solitário, que conjugou o verbo ser e se esqueceu de invadir o meu plural. Onde foi parar o mundo que era nosso reino simples, num casebre no meio do mato, perdido na estrada do perdidos-para-sempre? Se você se perder em mim, rogo aos céus que o labirinto seja um desvario inteiro de ilusões, para que a sua partida seja uma oração ao avesso. Mas se estiver perdido de mim, sem saber o caminho de casa, próximo à ladeira abaixo do quintal que tem flores selvagens, eu torno o impossível uma brincadeira fácil de criança. Podemos brincar de amarelinha, jogo da velha, invocar uma guerra de travesseiros para que nenhum de nós vença. Jogaremos baralho até os três batimentos cardíacos da madrugada, ingerindo um vinho doce e amargo, talvez um cântico soprado no ouvido, no ápice da euforia de um amor desesperado. E se você ri, meu amor, eu quero que o mundo se cale para escutar o som brusco e bruto do teu riso. E se todas as mulheres se inundam no silêncio para esconder a estrela que há em sua órbita, só para elas, como um segredo, meu peito se enche de um ciúme doente. Uma inveja desmedida, porque quem pode te tocar não merece afundar no lago negro dos teus olhos.
O breu do sol tem me cegado todos os dias, quando o âmago agarra com unhas e dentes a tua sina. Pode dizer que é destino, e se não crê em linhas traçadas, nós simplesmente podemos discutir onde eu começo e você termina. Iremos discutir sobre o céu que nublou quando a sua partida iminente assombrou a minha voz, ou o campo de flores que há mais adiante, beirando a avenida treze. Pendurei a lua no teto do quarto e lá tenho um céu noturno, estrelado, onde podemos localizar as almas vivas na morte de Júpiter. Podemos não falar nada, ouvindo o tormento um do outro enquanto as peles conversam por horas a fio. Se estiver frio, de um vento tão gelado quanto à temperatura do fogão, você pode chegar mais perto que eu deixo. Deixo o seu ombro roçar no meu, e teu cabelo quase grisalho – pois a nossa ausência o envelheceu no último mês – servir de terapia para as minhas mãos trêmulas, os dedos pálidos e escorregadios, que teimam em capturar os teus fios para um calabouço secreto. Não sei onde fica. Não sei onde está a coragem de ir embora. Não quero ir, não quero me perder. Sem você, sem o pedaço daquele velho amor faroeste que ficou em minha vã tentativa de suicídio. Mata-me, meu amor, ou eu hei de sacrificar a nossa alma. Mata-me ou matarei. Puxa o gatilho e me manda para o inferno. Porque prefiro arder; preciso me machucar para entender que aqueles beijos abaixo de lençóis limpos, mas sujos com o pó da nossa paixão maldita, não existem mais. Preciso me machucar até a última gota de sangue brotar no azulejo. Teu fantasma me castiga, tua sombra me persegue, mas nada é pior que a crueza do teu desprezo. Morri pra você. Então morri para o mundo.
Esperei o tempo certo para dizer que nós fomos errados. E ainda me culpo por esse frio que sinto aqui dentro…
Camila M. Paiffer, com cada gota dessa alma noturna.
(Source: blackroseslbl, via blackroseslbl)
Esperei o tempo certo para dizer que nós fomos errados. Inteiramente errados quando deixamos o nosso castelo de cartas...
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